NPP exercício 8

•08/02/2010 • Deixe um Comentário

Filme amador 

Corres escada abaixo desabrida.

Foges-me. Abandonas

a vida de casa.

À entrada do prédio, solta,

golfas o ar frio da noite

com a respiração difícil e as impressões despertas,

hesitas três passos na direcção a seguir.

Como é estranho o susto da liberdade.

Do parque automóvel completo

olhas para trás – um comboio vertical –

e reparas: ninguém veio à janela

para se despedir.

Cantas alto

mais alto do que os cavalos esquecidos

presos ao motor em quarta.

E segues em som acusmático.

O comboio deitou-se agora

uma linha de luz no túnel até ao mar,

zootrópio da imagem mínima repetida.

Falso raccord na faixa de rodagem contrária.

O caminho para regressares outra.

12-01-2010

NPP exercício 1

•08/02/2010 • Deixe um Comentário

Reescrita do poema “um dizer ainda puro”, de Vasco Gato:

Sobre nós virá um céu de espuma.

O riso é largo e tu não dizes nada,

o que sobra ainda no mundo para dizer é pouco.

Desorbitas os olhos

à procura de todos os pitchs.

(Tomei M.)

E queimei o corpo.

Passamos – já não é já.

Sim, cria comigo esse silêncio luz

no monitor.

10-11-2009

exercício último (2)

•19/12/2009 • 1 Comentário

Laura abandonava outra vez o lugar do morto com a arte de uma contorcionista: as mãos primeiro, o corpo em arco sobre o assento e atirava em seguida para trás cada uma das pernas nuas e firmes. Estendia-se no banco e deixava que o sol das quatro lhe lambesse o corpo. Entrava pelo vidro sujo e ela na luz e no pó escrevia com os dedos dos pés. Levava os seus olhos tão longe quanto podia imaginar – a estender-se até onde a vista podia alcançar, até aos sucessivos começos daquela recta.

A viagem durava há oitenta e dois dias. Só as noites traziam a suavidade às pálpebras esquecidas. Os pensamentos excitavam-se no escuro e o corpo de Laura escorregava até ao de António como um animal húmido que respirava perto do seu rosto. Avançavam à velocidade do silêncio. Já não mediam o tempo pelos relógios que traziam nos pulsos: antes, orientavam-se pela linha descontínua que media a distância capaz de os engolir.

Era como se a qualquer momento pudessem o que há muito se parecia anunciar.

A recta parecia interminável e Laura via-se a flutuar no espaço segurando uma barra de ferro – lá em baixo há uma floresta. Sempre acordada, sempre a ver. Muitas vezes também se esquecia que António viajava ainda com ela. (Sentia o suor que lhe fazia escorregar a mão do puxador da porta e agarrava-o com mais força, com a outra mão certificava-se de que o cinto de segurança estava bem apertado e fixava o olhar em frente). A terra deixara de ser redonda, agora não era mais do que um planisfério estendido.

António não dormia. Guiava o carro com punhos de aço. Tornara-se uma figura eléctrica e exalava um cheiro esquisito, o cheiro de um óxido, óxido nítrico, talvez, a lembrar as aulas de laboratório. Já não lutava contra o condutor solitário. Via essa imagem vezes sem conta, como no cinema, do seu banco ou do banco de Laura, para que pudesse absorver a imensidão da viagem que ambos faziam há demasiado tempo: o filme “Agora em exibição on the road – O tiro e a queda.” António contempla a tragédia com redobrado vigor.

exercício último (1)

•19/12/2009 • Deixe um Comentário

Tudo o que passou seja coberto pelos panos brancos. Já tudo era assim antes de eu ter vindo.

Havia chegado a luz, mas não a manhã. Doem-me as mãos e os pulsos. Cortei e atei a corda de sisal até queimar os dedos e a memória nas paredes nuas. Cada parede que vejo é agora a última.

Cada armário encerra segredos do tempo do esquecimento agora em caixotes indistintos que me impedem a entrada no quarto da frente. Lembro-me de um pente com dois dentes partidos, duas pulseiras que trouxe de Cabo Verde e da santa de devoção – tudo cuidadosamente arrumado na segunda prateleira, a que nunca ousei entender.

Ao entrar no quarto ao lado carrego no interruptor – interrompo o mundo: as figuras e as formas atiram-se contra os seus nomes. O colchão azul deixa a nu as flores transpiradas dos sonhos. Cheiram a sândalo os meus dias guardados em cada gaveta.

Movo-me em silêncio pela casa. Espalhada pelo corredor havia a colecção dos pratos antigos – de que serve pendurar pratos na parede? -. Buracos é o que resta dos Delft fingidos. Com os braços abertos de parede a parede, sigo instintivamente o rasto de recordações até à cozinha. Entre o lava-louça bafiento e o mármore gasto da bancada jaz o aquário tantas vezes usado como bola de cristal, prevendo outros mundos, lançando sobre mim as previsões mais auspiciosas, prolongando o raio da linha da vida. Era mais um caco do que um aquário.

“E o peixe?”. Subo a gelosia: a nitidez assusta, chove em finos traços como agulhas. Chove certo, chove duro. “Vais com a enxurrada, amigo. Não é assim que vamos todos?”. Desço. Desato o saco transparente e despejo-o na gaivagem do outro lado da rua. Volto para casa com o saco transparente molhado no bolso em marcha pouco fúnebre. “De que mais preciso desfazer-me?”

•19/12/2009 • Deixe um Comentário

exercício 15

•19/12/2009 • Deixe um Comentário

I

À sua frente estava um fugitivo encarcerado à mão de semear. Capturou-o. Falou sempre. Falou dela e de que agora a tristeza já não podia ser pena.

O corpo do fugitivo continuava rijo, a respiração estável, mas o discurso foi-lhe pesando à medida que os ímpetos de riso lhe contraíam o diafragma.

– Jogas este jogo e como prémio terás o seu corpo frágil, golpeado, a abraçar-te. Depois escapas-te. E acabamos por aqui.

II

Ela desvia o olhar do plasma, aperta-lhe os dedos e sorri-lhe:

– Acertas sempre.

Mas a mim tanto me falhas que não sabes no que te metes.

É um cheiro que não se esconde, o de outro homem em casa. Ali tresandava a mentira, um adocicado funéreo. Cada palavra sua entoava o som abrasivo do ódio.

Agora faltava-lhe descer os onze degraus para ver o que já sabia. No escuro, uma cama para o sofrimento excessivo e os olhos de um animal em fuga no corpo de um homem preso. Apanhado.

Detêm-se respirando sombra sobre sombra.

– Sossega – diz-lhe, sentada no último degrau. – A certeza tanta de morrer excede o medo de morrer.

– Não sou eu que tenho de te matar, o meu papel aqui é fugir.

– Enganas-te. Tenho um desejo e vem-me de ti. Aqui só terás de morder a mão que te dá de comer.

08.04.2009

•18/12/2009 • Deixe um Comentário